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45 anos

"Estou aqui sentado como nunca antes estive. Esta cadeira não pode ser a mesma dos outros dias. Está tudo diferente.
Cheguei aos 45 anos com poucos cabelos brancos e acompanhado por apenas um dos meus amigos de juventude. Hoje estou aqui e sei que vou morrer. Sei que só tenho mais um mês e que os últimos 40 anos foram um desperdício de tempo. Tenho dinheiro no banco, uma mulher à minha espera em casa, um emprego estável e dois filhos. Podia ser feliz, mas não sou. Podia conhecer o mundo e não conheço. Todo o tempo de que dispus utilizei em actividades infrutíferas que visavam apenas o futuro e que me trouxeram aqui.
Resta-me um mês. Tenho um mês para encontrar a felicidade. Tenho um mês para ser feliz. Tenho um mês que sei que não vou usar.
Vou continua a ser um imbecil no próximo mês: vou despedir-me de todos os que me são queridos, vou sair e beber uns copos com os amigos, mas vou continuar a não lhes dizer o que realmente sinto. As rotinas vão continuar as mesma e todos os dias me vou lembrar que estou a morrer.
Sempre fui um homem fraco. Nunca tive coragem para nada. A primeira vez que disse à minha mulher que gostava dela estava bêbedo e foi ela que me pediu em casamento. (Gostava de ter sido outro homem.)
Hoje sei que estou perto do fim. Hoje olho para as folhas da rua como se fossem peças de arte. Hoje aproveito e vivo o mundo. Hoje vou ficar na rua sem olhar para o relógio. Hoje vou esquecer as obrigações. Hoje vou ser livre. Hoje vou fazer tudo aquilo que me apetecer. HOJE VOU SER OUTRO HOMEM!
Amanhã não vou trabalhar. Vou comprar um bilhete de avião para o outro lado do mundo e vou-me embora só com a mochila às costas. Vou despedir-me da minha mulher e dizer-lhe que ela foi a melhor companheira do mundo e que em certos momentos da minha vida a amei.
E agora que o café fecha sei que tudo são meros e vãos desejos que se desvanecem na a próxima brisa.
Começou a chover..."

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S.

Aquilo não era eu. Aquilo não eras tu. Aquilo éramos nós. Agora, aquilo é apenas distância, estranheza e uma constante interrogação sobre a realidade desta memória. Eu amei-te. Tu amaste-me. Amámos-nos. Já não nos amamos. Tenho saudades de já não nos amarmos. Não tenho saudades tuas. Tenho saudades dele. Daquele que vi em ti naqueles dias. Foste o depósito da minha expectativa. Desculpa. Enganei-te. Enganaste-me. Enganámos-nos. Perdemos-nos um do outro. ..... ....... Merda! O que quero dizer é que tenho saudades tuas.

Por fim...

Qual é o espaço mais sóbrio do grande manicómio social ? São perguntas como esta, que nos surgem numa leitura, que me fazem pensar. Com algum sentido de humor respondo: "tascas" ou "tabernas". Reflectindo: Serão as escolas, faculdades, redacções jornalísticas, tribunas políticas, tribunais? Para mim, não... Na minha modesta opinião, a resposta que melhor se adequa, e espantem-se caros leitores, é: "os velórios ". É neles que cada um ganha realmente consciência de que a vida terrena tem um fim. Até aqueles que julgam entender a efemeridade da vida, só nesta altura o compreendem verdadeiramente. Depois? Depois restam as lágrimas, que cessam algum tempo depois e nos reencaminham para a nossa antiga e rotineira existência, sem nos lembrarmos que a morte pode chegar. Pois é, amigos, daqui a, 1... 2... 3... 4... ...